Terrorismo dos Incêndios – Quantos negócios valem as vidas humanas?

O flagelo dos incêndios em Portugal, em 2017, até ao dia de hoje, já causou 107 mortos, mais de 250 feridos e mais de 500 mil hectares de área ardida. Corresponde a 5,4% do território português. Corresponde, por exemplo a duas vezes o distrito de Lisboa inteiro. Na comunicação social, exploram-se os sentimentos das pessoas até à última lágrima e dá-se voz a inúmeros especialistas políticos, cujos debates infindáveis não rendem mais do que ataques políticos mútuos. Os verdadeiros especialistas no terreno, os chefes de corporações de bombeiros e o povo, que sofreu as consequências, literalmente, na pele, não têm direito a mais de uns meros minutos. Ataca-se fulano, sicrano e beltrano e continuamos sem informar a sociedade e sem dar ferramentas para que possamos ter a nossa própria opinião. Ser cidadão, hoje em dia, dá trabalho!

Ataques políticos aparte, analisemos os factos e não deixemos nunca que nos caia no esquecimento que estamos a ser alvo de terrorismo e de meia dúzia de negociatas. Meia dúzia de negócios que custam vidas humanas. Sim, porque ninguém já deverá ter dúvidas de que não estamos a falar de incêndios com causas naturais, mas sim fogo posto organizado. Escolhem-se meticulosamente os dias mais propícios à rápida propagação dos incêndios (vento forte, baixa humidade) e escolhem-se as horas mais convenientes e locais mais remotos para atear estes fogos. Ateiam-se em cada concelho 3 ou 4 pontos de incêndio, espaçados de alguns quilómetros e de alguns minutos, de forma a que o ataque às chamas seja impossível no imediato. (veja-se a importante entrevista do comandante dos Bombeiros Voluntários de Torres Vedras à RTVON – https://www.youtube.com/watch?time_continue=6&v=8lyGFxu4L4w) Estão, assim, reunidas condições para o terror.

Saber quais são as motivações por detrás dos mais de 154 incendiários detidos só este ano em Portugal, compete à Polícia Judiciária e divulgar, competiria, se um bom serviço público prestassem, aos meios de comunicação social. Não o fazem. Algumas das motivações serão certamente: negócio da madeira (a madeira ardida, desde que colhida num curto período de tempo, tem valor para a construção de móveis); negócio dos meios aéreos de combate a incêndios (quanto mais se mostrar que estes meios, e só estes meios, podem ser fulcrais no combate a este tipo de incêndios, maiores contratos se farão com estas empresas); negócio da construção (áreas protegidas e áreas florestais serão mais facilmente convertidas em áreas de construção de resorts se estiverem ardidas); razões políticas? deixo esta no ar para quem quiser analisar o “timing” dos mais de 500 incêndios do dia 15 de Outubro, depois de uma derrota enorme do PSD nas legislativas e cujas mortes nos incêndios levou a uma moção de censura e à demissão de um ministro.

Se culpados os há, são os incendiários. São os incendiários e os que mandam incendiar. Engane-se quem quiser pensar que os incendiários são os directos interessados nos incêndios. Se culpados os há, são todos os orgãos de justiça e os magistrados que libertam os incendiários detidos. Se culpados há, são os governos que permitem que negócios custem vidas humanas e tanta área ardida. Se culpados os há, são os governantes que entram nestes negócios.

Culpados não são, certamente, os bombeiros, que poucos meios têm face ao terrorismo que combatem. Num ano em que se investiram 134 milhões de euros na protecção civil (http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/oe2017-protecao-civil-vai-ter-orcamento-reforcado-em-cerca-de-quatro-milhoes-de-euros) (http://www.prociv.pt/bk/Documents/Plano%20de%20Atividades%20ANPC%202017.pdf) este é repartido de forma a que apenas pouco mais de 500 mil euros seja a parcela referente ao investimento. Da parcela referente ao funcionamento, parece que apenas 2,6 milhões tenham sido encaminhados para os bombeiros, quando 42.6 milhões foram para as despesas com o funcionamento dos meios aéreos (próprios e contratados). Parece vos justo? Enquanto alimentamos empresas privadas em negócio de especulação de meios aéreos, os bombeiros deparam-se no terreno com situações completamente intoleráveis e de desespero – http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/incendios/isto-vai-arder-tudo-comunicacoes-revelam-aflicao-dos-bombeiros-com-falta-de-meios – sem que tenham meios suficientes para os combater. O preço de um veículo florestal de combate a incêndios ronda os 140 mil euros, o que significa que poderíamos adquirir 18 veículos com a verba que supostamente seria encaminhada para os bombeiros. Foram, de facto, reforçadas as corporações mais enfraquecidas em termos de meios?

A estratégia do nosso governo é alimentar meia dúzia de empresas que vivem às custas deste cartel organizado do negócio de meios aéreos de incêndios, efectuando contratos milionários de alocação de meios aéreos e de pilotos. Dos 48 meios aéreos previstos para o combate aos incêndios, apenas 6 pertencem ao estado. Será isto boa estratégia, a protecção civil estar à mercê e dependente dos privados? Onde está o conceito de “estado”? Em 2006, o estado comprou então os 6 helicópteros KAMOV de combate pesado aos incêndios por 50.9 milhões de euros cada (http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-04-06-Cada-hora-de-voo-de-um-Kamov-custou-35-mil-euros) mas apenas 3 estão operacionais, estando os restantes à espera de reparações com valores compreendidos entre 2 e 8 milhões de euros.
Analisemos, agora, o custo dos contratos de alocação das restantes aeronaves. Por exemplo, a Babcock / Inaer foi contratada por 11 milhões de euros para a disponibilização de 2 aeronaves por 3 anos. É 21% do valor de um kamov pesado e daria certamente para reparar os nossos outros 3 meios aéreos, cuja autonomia é a maior de entre 40 dos meios aéreos alocados este ano aos privados à excepção dos Canadair espanhóis. Chocante é também a inflação de preços devido à especulação, quando em 2010, o mesmo contrato de 3 anos, por 10 milhões e meio de euros, compreendia 8 aeronaves (ainda que médias). Para além destes valores, falta informar qual o preço de um helicóptero médio Bell 212 (que existem usados a 3,1 milhões de euros – significa que nos 3 anos de alocação de uma aeronave destas, a podíamos pagar por completo) e falta também informar porque razão nunca foram postos à disposição do combate aos incêndios os Alouette III da Força Aérea. Para que serve, afinal, a Força Aérea Portuguesa, que no passado já combateu incêndios?

Fora de todo este negócio ficaram também os dois aviões pesados C130 da Força Aérea Portuguesa, preparados com Kits de combate a incêndios (a maior autonomia (10.000lts) de todos os meios aéreos que já falámos – o dobro de um canadair (5500lts)), que já não combatem incêndios desde finais de 1990, por decisão política. O preço dos Kits MAFFS, esse então, nunca foi divulgado e ponderado como hipótese de equipar ainda mais C130.

Mas estes helicópteros não voam sozinhos. O Governo Português decidiu colocar fora de cena os tão experientes pilotos da Força Aérea (estado) para fazer mais um negócio com uma das empresas do cartel, o negócio da prestação de serviços de pilotos para estas aeronaves. O contrato feito com a Everjets em 2015 custou 46 milhões de euros por quatro anos. Porque razão só agora, hoje, o Governo pensa em entregar esta frota à Força Aérea portuguesa?

Fora de toda esta discussão fica também o ordenamento do território e o investimento real (e não de meros 2 milhões de euros) nas corporações de bombeiros mais enfraquecidas do interior florestal português. Fora desta discussão fica também o fraco apoio aos bombeiros, que muitas vezes não podem sair dos postos de trabalho para ir combater incêndios, pois não há incentivo fiscal do Estado às empresas que empreguem bombeiros. Fica também para se debater o porquê da redução tão drástica nas últimas décadas dos vigilantes florestais e para quando o profissionalismo de mais bombeiros.

Que o mundo e os governos são um negócio, já não é novidade para ninguém. Agora que as vidas humanas e o terrorismo o eram, passou a ser novidade. É importante não esquecer nunca o que aconteceu a 17 de Junho e a 15 de Outubro de 2017. É importante exigirmos todos os dias a responsabilidade a quem está à frente deste país. São eles que têm o dever de zelar por nós. É a eles que devemos exigir seriedade, competência e rigor. É importante que estas pessoas, os decisores políticos tenham vergonha na cada e consciência pesada quando se deitarem todos os dias. É importante saber que enviaram para o terror das chamas 15000 bombeiros durante a fase charlie e tem que ser impossível esquecer as 107 mortes de civis inocentes em 2017.

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